Sobre o corpo errado...

 

Como eu não encontrava respostas razoáveis, algumas coisas começaram a se destacar e, para mim, naquele momento, eram os motivos que me deixavam de fora daquele mundo. Foi quando eu me descobri com um corpo físico. Até então eu nunca dei muita atenção a como me parecia ou ao que pensavam quando olhavam para mim. Talvez eu simplesmente não parecesse uma pessoa como as outras... Seria isso?

Devia ser! Era a única razão sensata! Pelo menos até aquele momento. Foi a primeira vez que eu me senti realmente infeliz. Quando tomei consciência de mim como um corpo me senti péssima. Comecei a ouvir aqueles adjetivos estranhos... O pior não foi ouvi-los, e sim começar a entendê-los. Entender o que queriam dizer com aquelas palavras.

E eu estava na primeira encruzilhada da minha existência! Como é que eu ia solucionar aquilo? Como é que eu ia mudar aquele corpo que estava errado? Eu não conseguia entender aquilo! Eu sabia que pessoas eram diferentes umas das outras, mais altas, baixas, gordas, magras... Mas eu não fazia idéia que existia certo e um errado nisso também. Além de aborrecida, eu estava muito triste!

Meu corpo estava errado!



- Postado por: o avesso às 16h14
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Sobre os dois mundos...

 

Eu realmente ficava aborrecida com tantos certos e errados. E quando eu perguntava: por que não? A resposta era muito simples: por que não, ora! Eu ficava realmente muito aborrecida. Até então, quando eu perguntava por que, eu geralmente obtinha alguma explicação razoável. Do lugar de onde eu vim, as pessoas se abaixavam em minha frente e explicavam as coisas. Eu conseguia entender os porquês! Por que raios aqueles estranhos se negavam a me contar as coisas?

Ah! Sim! Eu era muito pequena! Era criança! Isso me explicaram! E eu fiquei ainda mais aborrecida.  Por que eu penso que se alguém tem idade para perceber e perguntar, tem idade para receber sua resposta, ou não? Não estava pedindo uma palestra sobre física nuclear, nem a citação de uma enciclopédia... Eu só queria um motivo simples. Mas eu não tinha nenhum naquela época.

E eu só me aborrecia, cada vez mais. Deve ser por esse período que nasceu o tal conceito de “meu mundo”. Não tinha como eu ignorar as diferenças. Era o meu mundo e o mundo deles. E quando isso ficou claro... Eu fiquei chocada! Petrificada! Apavorada! Como assim? Dois mundos? E isso podia?  Ah! Lá vinha a questão sobre o quanto a realidade era real de verdade... Mas não era hora de se preocupar com isso. Eu tinha que me adaptar e o mais depressa possível!

Já davam para notar os primeiros sinais. O modo como as pessoas olhavam para mim, o modo como falavam e restava eu descobrir qual era o problema. E meus pensamentos se concentraram todos nisso: descobrir o que é que dividia esses dois mundos – mesmo que eu não estivesse completamente convencida deles.

E pus toda minha energia nisso!



- Postado por: o avesso às 02h19
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Sobre quem sou eu...

Com o tempo, eu deixei um pouco de lado essa questão toda do que era realmente real na realidade – eu sei, ficou repetitivo, mas é assim mesmo que eu penso. Chegava um tempo em que eu tinha uma porção de outras questões para entender antes de me aprofundar no caso da realidade, agora sem uma teoria fixa. A pergunta agora era mais pessoa. Eu devia ter uns seis anos quando me perguntei pela primeira vez: quem sou eu?

É. Quem sou eu?

Confesso que até hoje eu considero impossível responder a essa pergunta com total honestidade. Não tem como ser sincero nisso! Ou eu vou me superestimar e me encher de elogios estúpidos ou vou fazer exatamente ao contrario e me subestimar atribuindo a mim mesma até os defeitos que eu não tenho. Alguém é realmente capaz de dizer quem é? De verdade? Ah! Não... Nada de verdade verdadeira! È apenas: quem sou eu?

Por que para mim não fazia muito sentido. Eu não era uma menina esperta que todos elogiavam o tempo todo? Por que é que agora tinha gente gritando comigo? Por que é que as outras crianças estavam rindo? Não! Aquilo não fazia sentido algum. Eu sentava e pensava a respeito, mas não adiantava, eu não conseguia entender quando eu tinha me transformado daquele jeito.

É claro que eu não me tinha transformado em coisa alguma! Eu era apenas eu! Mas aos seis anos, eu realmente achava que estava me tornando alguma criatura estranha. Pelo modo como as pessoas me olhavam e pelo modo como aquelas pessoas falavam comigo. Por que falavam daquele jeito? Achavam que eu era alguma retardada? Mostravam-me desenhos e mandavam que eu pintasse... Mas meus cachorros não podiam ser verdes, minhas meninas não podiam ter os cabelos cor-de-rosa - sim! Eram outros tempos e cabelos coloridos eram inaceitáveis, minha grama não podia ser azul e de jeito nenhum o céu podia ser de outra cor que não fosse azul.

Isso me aborrecia.

 



- Postado por: o avesso às 18h25
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Sobre a realidade...

 

Comecei a questionar a realidade em si. O que era real? Eu era real? Eu realmente existia? Como é que eu poderia existir se a grande maioria das pessoas no planeta ignorava completamente a minha existência? Alguém realmente existe se ninguém sabe que ela existe? Se uma árvore cai no meio da floresta e não há ninguém por perto para ouvir, ela produz som? Começava uma cruzada que não teria mais fim...

Eu passava horas simplesmente pensando sobre a realidade, sobre o quanto tudo era real de verdade Eu realmente conseguia ficar horas em silêncio ouvindo as coisas em redor, sentindo tudo o que estava em torno de mim. Tudo aquilo era real mesmo? Ou aquilo só era real para mim?

Ah! Sim! Surgiu outra questão aqui. A realidade era igual para todo mundo? Será que era? Será que todo mundo via as coisas como eu as via? As pessoas pensavam por que os pássaros voam e os cachorros não? – eu sempre pensei nisso, por que os cachorros não voam afinal? Será que as outras pessoas deitavam no chão e olhavam as formigas? Será que viam as mesmas formas que eu? Será que o mundo delas era igual ao meu?

Meu! Um conceito adquirido, confesso! Não sei dizer quando, mas sei que essa coisa de “meu” não nasceu comigo. Alguém me ensinou isso. Alguém deve ter me dito: isso é seu, isso não é seu! Deve ter sido assim, ou muito parecido. Por que se eu pensar bastante vou me lembrar de uma época que não sabia o que queria dizer esse “meu”, menos ainda o que poderia significar “meu mundo”.

Mas eu ainda não estava convencida da realidade. Ainda parecia que tudo era uma grande encenação. Não! Não era um filme! Isso eu sabia! Mas assim mesmo nada me convencia do quanto tudo era real. Era? Quanto? Como? Eu pensei em perguntar aos adultos sobre isso, lembro até de formular algumas perguntas aqui e ali... Mas as respostas geralmente eram sonoras risadas. O que era tão engraçado afinal? Eu só duvidava da realidade! Isso era assim tão estranho?

Era! Mas eu não sabia disso!



- Postado por: o avesso às 19h02
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Parte I - A infância

Sobre o início...

 

 

Não sei qual é a maior revolução que pode acontecer na vida de uma pessoa. Sei das minhas revoluções... Evoluções, involuções, erupções, contradições... Acho melhor eu começar isso do jeito certo, não é? Talvez como por quando eu nasci ou quando percebi que havia nascido, ou ainda quando entendi que existia. Sinceramente eu não sei quando começou, só sei que um dia eu acordei e estava ali! Gigante! Em neon, bem diante dos meus olhos! Eu era diferente!

Em princípio eu sou bem normal: dois olhos, um nariz, uma boca; duas pernas, dois braços; mãos, pés e dedos; pele, pêlos, glândulas; sangue, ossos, músculos... Tudo muito normal! Em principio.

Talvez tenha começado gradualmente em algum momento enquanto eu crescia. Talvez tenha sido mais uma grande explosão repentina e despropositada. Talvez eu seja apenas levemente desequilibrada e nada disso realmente faça sentido, mas vamos ao fundo disso antes de concluir qualquer coisa.

Eu penso demais. Esse é um bom ponto. Desde que consigo me lembrar sempre estive pensando em alguma coisa. E não, não estou falando sobre meninos e roupas. Eu sempre estive pensando em coisas sobre as quais eu não tinha, e ainda não tenho, o menor domínio ou controle. Desde que consigo recordar sempre estive pensando na vida, nas pessoas, em como as coisas aconteciam e porque aconteciam.

Eu me lembro, vagamente é verdade, de pensar, quando era criança, que vivia em um filme. Por que não? Eu perdia horas imaginando se tinha alguém assistindo o que eu estava fazendo, alguém sentado sossegado em seu sofá, comendo pipocas e rindo das coisas estúpidas que eu fazia, dizia e pensava. Ficava imaginando se as cores realmente eram reais, se um dia eu ia dormir e não ia acordar – por que um filme tem que acabar, não é? Ficava olhando as pessoas em redor e pensando se elas tinham certeza que eram reais e se tinham, como é que tinham essa certeza?

Eu vivi em um filme por muito tempo. Imaginava o que as pessoas que passavam na rua faziam depois que eu as via passar na rua... Se eu via alguém com os sapatos sujos, eu podia realmente visualizar perfeitamente o modo como se sujaram. Eu achava engraçado pensar que as pessoas todas – sim! Todos nós! – eram parte de um filme estranho, assistido por Deus sabe quem, Deus sabe onde!

A teoria do filme começou a enfraquecer a medida que eu crescia exatamente por causa do espectadores. Quem poderiam ser eles? E bem, o filme parecia não ter fim, o que não parece nada realista. E o enredo foi me parecendo estranho com o passar do tempo. Aumentava a quantidade de porquês sem respostas e isso começava a me incomodar. A teoria do filme simplesmente não servia mais.

Mas eu ainda pensava muito, o tempo todo.

 



- Postado por: o avesso às 19h24
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